Principais destaques:
- Durante a Guerra Fria, a União Soviética também teve seu próprio programa de busca por vida inteligente fora da Terra.
- A conferência secreta de 1964 na Armênia marcou o nascimento oficial do SETI soviético.
- O encontro internacional de 1971, conhecido como a “Arca de Noé” do SETI, reuniu cientistas do Leste e do Ocidente em plena Guerra Fria.
Você provavelmente já ouviu falar do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), o programa global dedicado a procurar sinais de civilizações inteligentes fora da Terra.
Mas o que quase ninguém conta é que, durante a Guerra Fria, a antiga União Soviética também teve sua própria jornada – cheia de segredo, ciência e esperança – na busca por vozes vindas das estrelas.
Enquanto o mundo se dividia entre EUA e URSS, um punhado de cientistas soviéticos acreditava que o verdadeiro futuro da humanidade não estava nas armas, mas nas ondas de rádio.
Quando o rádio virou ponte entre mundos
Nos anos após a Segunda Guerra Mundial, a astronomia passou por uma revolução: os cientistas descobriram que podiam ir além da luz visível e “ouvir” o universo por meio das ondas de rádio.
Esse avanço transformou antenas militares em telescópios celestes e abriu novos caminhos para entender o cosmos.
Foi o astrônomo Iosif Shklovsky quem deu o primeiro passo marcante. Ele percebeu que o hidrogênio, o elemento mais comum do universo, emite um tipo de radiação que podia ser captada por rádio.
Essa descoberta permitiu mapear o movimento das galáxias e entender melhor o que se escondia entre as estrelas.
Mas Shklovsky queria mais. Fascinado pela ideia de que não estamos sozinhos, ele propôs algo ousado: usar os mesmos rádios para tentar ouvir civilizações de outros mundos.
Em 1960, publicou um artigo sobre isso, que logo virou o livro Universo, Vida, Inteligência — um sucesso de público e inspiração para toda uma geração de astrônomos.
No mesmo ano, o governo soviético decidiu dar um toque simbólico: enviou um sinal de rádio em direção a Vênus com as palavras “Lenin, URSS e Mir” (esta última significando tanto “mundo” quanto “paz”).
Não era um contato real com alienígenas, mas uma mensagem cósmica de orgulho tecnológico.
O nascimento oficial do SETI soviético
Apesar dessas ideias brilhantes, os projetos eram isolados e o tema, sensível.
Assim, em 1964, um grupo de cientistas soviéticos se reuniu longe de Moscou, na Observatório Astrofísico de Byurakan, na Armênia. Esse encontro, discreto e estratégico, marcou a fundação do SETI soviético.
Lá, um grupo oficial passou a se dedicar à busca de sinais artificiais vindos do espaço. A partir daí, a União Soviética levou o tema a sério, embora ainda com muita supervisão do governo e vigilância militar.
Afinal, as mesmas frequências usadas para detectar vida alienígena também eram vitais para a comunicação de satélites espiões.
Mesmo sob essas barreiras, os cientistas soviéticos seguiram pesquisando, firmes em uma convicção: se algo ou alguém estivesse tentando se comunicar conosco, poderíamos ouvir.
A “Arca de Noé” científica em plena Guerra Fria
O ponto alto dessa jornada veio em 1971, quando Byurakan voltou a receber outro encontro histórico.
Cerca de 50 cientistas da URSS, dos Estados Unidos, e de outros países como Reino Unido, Canadá e Hungria se reuniram para discutir, lado a lado, como buscar vida inteligente fora da Terra.
Em plena tensão geopolítica, o evento foi tão improvável que ganhou o apelido de “A Arca de Noé” do SETI. O nome simbolizava a união improvável de cientistas do “Leste” e do “Oeste” no mesmo “barco” do conhecimento.
E curiosamente, tudo aconteceu aos pés do Monte Ararat, local lendário onde, segundo a tradição, teria repousado a Arca original.
Desse encontro nasceu o primeiro grupo internacional oficial do SETI, que sobrevive até hoje, conectando pesquisadores do mundo inteiro na busca por sinais que possam responder à pergunta mais antiga da humanidade: “Estamos sozinhos?”
Um legado que ainda ecoa
Embora o SETI nunca tenha captado uma mensagem confirmada de outra civilização, sua influência científica e filosófica é imensa.
Além de inspirar novos acordos sobre o uso das frequências de rádio, o projeto soviético mostrou que a ciência pode ser um ponto de encontro mesmo em tempos de conflito.
Hoje, o SETI continua vivo, agora com tecnologias muito mais sensíveis e antenas espalhadas pelo planeta e herda o espírito curioso e esperançoso dos cientistas que, décadas atrás, ousaram ouvir o silêncio do cosmos.
