Pentágono revela caso brasileiro de 1963 que falava em esfera metálica e um corpo misterioso

Renê Fraga
15 min de leitura

Principais destaques

  • Um dos documentos do novo lote de arquivos de OVNIs cita um suposto objeto metálico que teria caído em Conde, na Bahia, em novembro de 1963.
  • Relatos da época descreviam uma esfera com janelas de vidro, uma cratera e até um corpo humano dentro do objeto.
  • Documentos diplomáticos dos Estados Unidos, porém, registraram que a história foi investigada e considerada uma fabricação.

O novo lote de arquivos sobre fenômenos aéreos não identificados divulgado pelo governo dos Estados Unidos trouxe uma surpresa para os brasileiros. Em meio a vídeos militares, relatos de pilotos e documentos históricos, apareceu uma história ocorrida na Bahia que parece saída de um filme de ficção científica.

O episódio aconteceu em novembro de 1963, no município de Conde, no litoral norte da Bahia. Segundo uma informação transmitida por uma emissora de rádio brasileira e posteriormente registrada nos arquivos americanos, uma enorme esfera metálica teria caído no centro da cidade.

A história ficaria ainda mais estranha a partir daí.

O objeto teria aberto um buraco de aproximadamente quatro metros no solo e apresentaria estruturas semelhantes a janelas, protegidas por um vidro espesso. Dentro da suposta esfera estaria um corpo humano vestido com roupas pesadas. Para completar o cenário, havia relatos de inscrições no corpo ou em suas roupas que não poderiam ser decifradas.

Décadas depois, esse relato acabou entrando nos arquivos que agora estão sendo divulgados pelo Pentágono.

Mas existe uma reviravolta importante: os próprios documentos americanos também registraram que a história não era verdadeira.

Uma esfera misteriosa teria caído na Bahia

O caso começou a circular em 8 de novembro de 1963.

Um registro de inteligência baseado em uma transmissão da Rádio Tupi, em português, informava que uma grande esfera metálica havia caído na região central de Conde, na Bahia. A descrição dizia que o impacto teria provocado um buraco de quatro metros.

O objeto supostamente possuía aberturas semelhantes a janelas, cobertas por vidro grosso. Dentro dele estaria um corpo humano usando roupas pesadas e apresentando inscrições que não haviam sido identificadas.

A notícia naturalmente despertou a atenção da população local.

Para quem viveu aquele período, a história tinha todos os elementos de um acontecimento extraordinário. Um objeto metálico desconhecido teria vindo do céu, atingido o solo e deixado para trás algo que parecia ser um ocupante.

E havia ainda um detalhe capaz de alimentar a imaginação: as inscrições desconhecidas.

Em 1963, o mundo estava no auge da Guerra Fria e poucos anos haviam se passado desde o início da era espacial. A União Soviética já havia colocado o primeiro ser humano em órbita, Yuri Gagarin, em 1961, e os Estados Unidos aceleravam seu próprio programa espacial.

Qualquer notícia sobre um objeto estranho caindo do céu poderia ganhar uma dimensão muito maior naquele contexto.

O curioso é que o episódio chegou rapidamente ao conhecimento das autoridades americanas.

O governo dos EUA decidiu investigar o que havia acontecido

A história não ficou restrita aos jornais e às conversas entre moradores.

Um documento diplomático americano datado de 20 de novembro de 1963 mostra que o episódio foi acompanhado pelo consulado dos Estados Unidos em Salvador e pela embaixada americana no Rio de Janeiro.

O documento foi elaborado pelo diplomata e cientista André C. Simonpietri e tinha como assunto um suposto relato de OVNI próximo a Salvador, na Bahia.

Simonpietri recebeu informações do cônsul americano em Salvador, Harold Midkiff, que havia buscado verificar o que realmente acontecera em Conde.

E foi nesse momento que a história começou a desmoronar.

Segundo o telegrama de Midkiff, pessoas enviadas à região não encontraram evidências do objeto descrito na notícia. Jornalistas teriam chegado ao local antes mesmo de uma investigação oficial mais ampla e não encontraram o cenário extraordinário descrito no primeiro relato.

O Ministério da Aeronáutica brasileiro também teria negado categoricamente a existência de qualquer objeto estranho em Conde.

Um dos jornais consultados pelas autoridades chegou a publicar uma manchete equivalente a “O dirigível que não existiu”.

A conclusão transmitida aos americanos foi direta: a história aparentemente havia sido fabricada no Rio de Janeiro.

O episódio, portanto, não acabou classificado como uma misteriosa nave extraterrestre escondida pelas autoridades.

Ao contrário.

O material diplomático americano registra justamente uma conclusão muito mais mundana: não havia evidências de que a esfera tivesse realmente caído em Conde.

Por que uma história tão estranha foi parar nos arquivos do Pentágono?

Essa talvez seja a parte mais interessante do caso brasileiro.

A presença do documento no novo lote não significa que o governo americano esteja afirmando que uma nave extraterrestre caiu na Bahia.

O que foi liberado é um registro histórico sobre uma alegação de OVNI que chamou atenção das autoridades americanas durante a Guerra Fria.

Essa diferença é fundamental.

Os arquivos de UAP não são necessariamente uma coleção de acontecimentos confirmados. Eles também podem conter relatos, comunicações diplomáticas, entrevistas, documentos de inteligência e informações que posteriormente foram consideradas falsas ou explicadas.

O caso de Conde é praticamente um exemplo perfeito disso.

O primeiro documento registra uma história extraordinária. Um segundo conjunto de informações, produzido depois que autoridades buscaram verificar o episódio, aponta para uma fraude.

Isso torna o caso brasileiro particularmente interessante porque permite observar o processo de investigação acontecendo dentro dos próprios documentos.

Não é apenas uma história de “OVNI caiu no Brasil”.

É uma história sobre como uma notícia extraordinária surgiu, atravessou fronteiras e chegou aos órgãos do governo americano antes de ser contestada pelas próprias autoridades envolvidas.

E isso também ajuda a entender por que os novos arquivos precisam ser lidos com cuidado.

O detalhe do suposto corpo deixou a história ainda mais estranha

Entre todos os elementos do relato original, talvez nenhum seja tão curioso quanto a descrição do ocupante.

A informação transmitida pela rádio dizia que havia um corpo humano dentro da esfera. A pessoa estaria usando roupas pesadas e teria inscrições consideradas indecifráveis.

O detalhe imediatamente cria uma imagem que parece pertencer a uma história de ficção científica: uma cápsula metálica desconhecida, um corpo misterioso e símbolos que ninguém consegue reconhecer.

Mas não há, no material divulgado sobre o episódio, uma evidência física apresentada ao público que confirme a existência desse corpo.

Também não aparece uma fotografia comprovando a esfera ou o suposto impacto.

Isso é importante porque a narrativa mais impressionante do caso não veio acompanhada de uma prova física correspondente.

O que existe é um registro documental de que a história foi contada e posteriormente investigada.

E a investigação apontou para outro caminho.

As autoridades americanas receberam informações de que ninguém na região havia observado o suposto objeto e que os jornais locais também não haviam encontrado evidências concretas.

A própria Aeronáutica brasileira teria negado o acontecimento.

Assim, o elemento mais fantástico da história acabou sendo justamente aquele para o qual não surgiu nenhuma confirmação independente.

O Brasil aparece em um momento importante da história dos OVNIs

Embora o caso de Conde tenha sido considerado uma fraude, sua presença no arquivo americano também revela algo interessante sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos durante o período.

Os relatos de objetos misteriosos no céu já circulavam amplamente na América Latina naquela época. O interesse americano por esse tipo de informação não se limitava ao território dos Estados Unidos.

Durante a Guerra Fria, qualquer relato envolvendo objetos desconhecidos poderia despertar interesse estratégico.

Um fenômeno observado no céu poderia ser um avião, um balão meteorológico, um equipamento militar, um teste tecnológico ou simplesmente uma história inventada.

Para os governos, entretanto, o desafio era descobrir qual dessas possibilidades estava diante deles.

O caso de Conde mostra exatamente esse problema.

Uma notícia inicialmente extraordinária chegou às autoridades americanas. O consulado buscou informações locais. Jornalistas foram consultados. Autoridades brasileiras foram ouvidas. E, ao final, a versão mais extraordinária não resistiu à verificação.

É um exemplo curioso de como um suposto caso de OVNI pode se transformar em um documento histórico sem jamais ter sido um verdadeiro encontro com algo desconhecido.

A história de 1963 é diferente dos vídeos atuais

O novo lote do Pentágono mistura casos muito diferentes.

Alguns são vídeos registrados por sensores militares modernos. Outros são depoimentos de pilotos. Há ainda documentos com décadas de idade e representações artísticas baseadas em relatos.

O episódio de Conde pertence a essa última categoria histórica.

Não existe, neste caso, um vídeo de uma esfera metálica pousando na Bahia ou uma fotografia mostrando o suposto corpo. O que sobreviveu foi a documentação sobre a história.

Isso cria uma diferença enorme em relação aos registros modernos.

Hoje, uma ocorrência pode envolver câmeras digitais, sensores infravermelhos, radares, dados de satélite e registros de tráfego aéreo. Em 1963, a investigação dependia muito mais rapidamente de testemunhas, jornais, autoridades locais e comunicações diplomáticas.

Por isso, um boato poderia atravessar uma cadeia de informações com uma velocidade surpreendente e chegar a um governo estrangeiro antes de ser completamente checado.

O caso brasileiro mostra que isso não era apenas uma possibilidade.

Aconteceu.

O mais curioso é que o arquivo não confirma um OVNI

Talvez essa seja a principal conclusão para quem encontrar manchetes dizendo que o Pentágono “revelou uma nave alienígena no Brasil”.

O documento não faz isso.

Na realidade, ele conta uma história muito mais interessante do ponto de vista histórico.

Os Estados Unidos registraram uma notícia sobre um suposto objeto misterioso na Bahia. O relato dizia que uma esfera metálica havia caído, deixado uma cratera e carregava um corpo.

Depois, autoridades americanas receberam informações de que o acontecimento não havia ocorrido daquela maneira.

O Ministério da Aeronáutica brasileiro negou o episódio, jornais locais não encontraram evidências e o cônsul americano classificou a história como aparentemente fabricada.

Ou seja, o próprio arquivo que hoje desperta a curiosidade sobre o suposto “OVNI brasileiro” também contém a explicação que desmonta o mistério.

Isso não torna o documento menos interessante.

Talvez até o torne mais.

Em meio a uma coleção repleta de fenômenos que permanecem sem identificação, o caso de Conde mostra o outro lado da investigação: nem tudo que parece inexplicável é realmente inexplicável.

Algumas histórias são simplesmente histórias.

E por que esse caso voltou a chamar atenção agora?

A resposta está na nova política de divulgação dos arquivos americanos sobre UAPs.

O governo dos Estados Unidos começou em 2026 a publicar sucessivas coleções de documentos históricos e registros relacionados a fenômenos anômalos. O Departamento de Guerra afirmou que novas liberações seriam feitas de forma contínua.

O quinto lote, divulgado em agosto, reuniu 41 arquivos que atravessam décadas. Entre eles estão registros militares recentes, relatos de pilotos e documentos históricos.

É nesse último grupo que o episódio brasileiro reapareceu.

O caso é especialmente interessante para o público brasileiro porque não envolve uma história famosa como Varginha ou a Operação Prato. Trata-se de um episódio de 1963 que passou praticamente despercebido por décadas e agora voltou à superfície por causa de um arquivo diplomático americano.

E existe uma ironia nisso tudo.

A história que poderia parecer uma das mais impressionantes do novo lote é justamente uma das que possuem uma conclusão mais clara.

A esfera metálica, o corpo misterioso e as inscrições indecifráveis fazem parte de um relato que chegou às autoridades. Mas a investigação posterior não encontrou evidências de que o objeto realmente tivesse existido.

O mistério, neste caso, não está em descobrir de que planeta veio a esfera.

Está em entender como uma história tão extraordinária conseguiu ganhar força suficiente para chegar aos registros oficiais de uma superpotência em plena Guerra Fria.

E, mais de seis décadas depois, ela voltou a aparecer justamente nos arquivos que o governo americano está liberando para o mundo.

Apoie o Eurisko
Este conteúdo é independente, sem anúncios e feito por pessoas.
A inteligência artificial e as mudanças recentes do Google reduziram significativamente o alcance dos sites independentes. Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar o Eurisko e todo o ecossistema de projetos com qualquer valor.
Quero apoiar
Seguir
Renê Fraga é criador do Arquivo UFO e editor-chefe do Eurisko. Atua com projetos digitais desde 1996 e mantém interesse contínuo pela ufologia, história e investigação de fenômenos aéreos não identificados. No Arquivo UFO, dedica-se à preservação de registros históricos, documentos e análises contextuais, conectando passado e presente em uma abordagem crítica e investigativa.
Nenhum comentário