Novos arquivos de OVNIs mostram um detalhe curioso: câmeras falharam nos momentos decisivos

Renê Fraga
20 min de leitura

Em 7 de agosto de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos publicou o quinto lote do programa PURSUE, com 41 novos arquivos sobre Fenômenos Anômalos Não Identificados.

Já cobrimos aqui no Arquivo UFO os destaques gerais da liberação e o caso brasileiro de 1963 que reapareceu nos arquivos americanos.

Nesta análise, vamos além do resumo dos casos: observamos uma mudança estrutural na forma como o governo está documentando o fenômeno, um padrão recorrente de falhas técnicas exatamente nos momentos mais decisivos dos encontros, e uma tipologia visual, os chamados “triângulos negros”, que atravessa oito décadas de arquivos.

Fifth batch of Pentagon UFO files released: See all 16 videos

O que muda estruturalmente no lote 5

Em volume, o quinto lote é o menor já divulgado pelo PURSUE: o pacote de dados brutos disponibilizado no portal oficial somou apenas 643 megabytes, um contraste evidente com a extensão dos lotes anteriores, dominados por vídeos militares em alta resolução.

Mas o dado mais relevante não é o tamanho do arquivo, e sim o que ele contém: pela primeira vez, o governo priorizou reconstruções digitais e documentos de inteligência histórica em vez dos vídeos brutos de sensores de combate que caracterizaram as quatro liberações anteriores.

Essa escolha editorial, feita pelo próprio Departamento de Guerra, tem um efeito prático sobre como o público consome os arquivos: em vez de imagens diretas de sensores infravermelhos, boa parte do lote 5 é composta por interpretações visuais produzidas pelo FBI a partir de relatos de testemunhas, quando não havia câmeras operacionais ativas ou quando elas falharam no momento do avistamento.

Como veremos adiante, essas falhas de gravação não são um detalhe isolado: elas se repetem em praticamente todos os casos operacionais mais citados do lote.

A guinada das reconstruções digitais do FBI

As renderizações digitais já existiam em lotes anteriores, a mais conhecida delas é a do caso Colorado Springs de 2022, divulgada no terceiro lote.

Mas no quinto lote essa prática ganha peso muito maior, incluindo pelo menos dois novos casos: um triângulo escuro e translúcido observado sobre a Base Aérea de Bagram, no Afeganistão, em 2002, e um episódio semelhante registrado em Colorado Springs no fim de 2023, um caso distinto do “objeto batata” de 2022, mas na mesma região geográfica, o que reforça a cidade colorada como um ponto de recorrência dentro do acervo do PURSUE.

O uso mais intenso de renderizações, em vez de material bruto de sensores, sugere uma mudança de estratégia editorial por parte do governo: menos ênfase na “prova tecnológica” direta e mais foco na descrição fenomenológica dos encontros, uma forma de documentar testemunhos qualificados mesmo quando não existe imagem original para acompanhá-los.

O padrão dos “triângulos negros”

Um dos fios condutores mais interessantes do lote 5 é a recorrência de objetos triangulares ou em formato delta ao longo de diferentes décadas. Um dos arquivos, catalogado como FBI-UAP-D029, traz a renderização digital de um triângulo escuro com luzes nas extremidades, observado por uma testemunha em 2011.

Esse tipo de objeto é historicamente associado, no imaginário popular da ufologia, a lendas como a do TR-3B — uma suposta aeronave triangular de fabricação humana, fruto de engenharia reversa, que nunca teve existência comprovada oficialmente.

O lote também resgatou um caso muito mais antigo: um objeto em formato delta registrado em Porto Rico em 1964, que teria operado a velocidades superiores a Mach 3, mais de três vezes a velocidade do som.

Ao colocar lado a lado um caso de 1964 e avistamentos recentes de 2023, o próprio arranjo dos documentos sugere que as agências americanas enxergam algum tipo de continuidade física entre os dois períodos, ainda que nenhum documento afirme isso explicitamente nem ofereça prova conclusiva dessa continuidade.

Golfo de Omã: 25 “orbes frias” e uma falha total de gravação

O caso operacional mais detalhado do lote 5 envolveu uma aeronave AC-130 durante um exercício de tiro real no Golfo de Omã, em 2021.

Segundo o relatório de inteligência que acompanha o material, a tripulação observou cerca de 25 objetos descritos como “orbes frias”, voando em diferentes formações a velocidades entre 400 e 2.100 km/h, com movimentos considerados agressivos e uma aparente reação direta aos disparos do canhão principal da aeronave.

O detalhe mais chamativo, porém, não está na descrição dos objetos, mas na ausência de registro: o evento não gerou nenhum segundo de gravação direta, porque o gravador digital da aeronave falhou exatamente durante o incidente.

A comunidade de inteligência precisou recorrer a filmagens secundárias, feitas por celulares de tripulantes ou por embarcações de escolta próximas, material de baixa qualidade e alta granulação, catalogado como uma sequência de arquivos entre DOW-UAP-PR117 e DOW-UAP-PR122.

Um padrão de falhas técnicas nos momentos decisivos

O episódio do Golfo de Omã não é um caso isolado dentro do lote 5. A leitura conjunta dos relatórios de inteligência revela uma recorrência de falhas técnicas justamente nos momentos mais críticos das interações militares: sensores infravermelhos e eletro-ópticos que perdem o foco, sofrem distorções ou simplesmente não registram nada no instante em que os objetos executam manobras de aceleração instantânea.

Esse padrão levanta uma pergunta legítima, ainda sem resposta nos próprios documentos: essas falhas são puramente técnicas, resultado de limitações reais dos equipamentos militares atuais, ou representam algum tipo de interferência associada aos próprios fenômenos observados?

O PURSUE não oferece uma resposta definitiva e é exatamente essa ausência de dados nativos e conclusivos que mantém a maioria dos casos na categoria “não resolvido”, mesmo quando o relato da tripulação é detalhado e consistente.

Outros vídeos “não resolvidos” do lote 5

Além do episódio do Golfo de Omã, o lote 5 trouxe 15 vídeos adicionais classificados pelo AARO como “não resolvidos”, cobrindo o Golfo de Omã, o Oceano Pacífico e o Oriente Médio.

Um deles mostra uma esfera escura sobre o Oceano Pacífico, em 2019, que desaparece momentaneamente e reaparece com uma espécie de tremor durante o deslocamento, efeito que pode estar relacionado ao fato de a imagem ter sido captada por uma câmera portátil filmando diretamente a tela do sensor original, e não pelo arquivo bruto do equipamento.

Outro vídeo do lote mostra uma esfera cruzando o céu sobre uma área urbana do Oriente Médio, em 2025, captada por uma plataforma militar americana.

Como já apontamos em cobertura anterior, imagens desse tipo carregam uma limitação importante: sem contexto adicional de distância e velocidade real, um objeto pequeno e próximo pode parecer tão impressionante quanto um objeto muito maior e distante.

Relatos de pilotos: o caso Boston–Dublin

O lote 5 também trouxe testemunhos da aviação civil e militar, incluindo o relato de um ex-piloto militar que descreveu ter observado luzes incomuns durante um voo entre Boston e Dublin, em 2023, episódio já detalhado em reportagem anterior do Arquivo UFO.

O piloto afirmou ter presenciado o fenômeno em mais de uma ocasião e disse ter ouvido relatos semelhantes de outros colegas em voos realizados em horários próximos, um padrão de múltiplas testemunhas independentes que costuma reforçar o interesse investigativo de um caso, mesmo sem uma identificação conclusiva.

Arquivos históricos: da Guerra Fria aos “foguetes fantasmas”

A parte histórica do lote 5 inclui um documento de 1953, produzido pelo Naval Photographic Interpretation Center — unidade da Marinha americana especializada em análise de imagens, avaliando dois filmes registrados no início dos anos 1950 em Montana e em Utah.

Segundo a análise da época, a aparência e a luminosidade dos objetos filmados não eram compatíveis com certos fenômenos naturais conhecidos, embora isso não configure, nem hoje nem então, uma prova de origem não convencional.

Um paralelo histórico interessante, presente na documentação sobre a gestão pública do tema, envolve o episódio sueco dos chamados “Foguetes Fantasmas”, de 1947, uma onda de avistamentos na Escandinávia que, segundo registros da época, teve sua explicação oficial alterada de “tecnologia desconhecida” para “fenômeno de origem celestial” por razões de conveniência diplomática, em um contexto de tensão crescente com a União Soviética.

Esse tipo de documento ajuda a entender por que tantos casos antigos vêm sendo revisitados e recatalogados nas liberações mais recentes do PURSUE: o interesse não está apenas na natureza dos objetos, mas em como diferentes governos historicamente gerenciaram a informação sobre eles.

O caso brasileiro revisitado: por que ele continua “não resolvido”

Já dedicamos uma reportagem completa ao episódio da suposta esfera metálica de Conde, na Bahia, em 1963. Mas vale acrescentar aqui um ponto de análise: mesmo depois de o Consulado americano em Salvador e o Ministério da Aeronáutica brasileiro terem concluído, ainda em 1963, que a história era uma fabricação, o documento (catalogado como DOS-UAP-D001) permanece hoje classificado dentro do acervo de fenômenos não explicados do PURSUE, e não como um caso formalmente encerrado.

Essa contradição é reveladora por si só. Ela sugere que o critério de triagem do programa nem sempre prioriza a conclusão factual de cada episódio, mas também o valor do documento como registro de como esse tipo de informação circulou entre governos aliados durante a Guerra Fria, uma lógica mais próxima da preservação histórica e diplomática do que da simples verificação de fatos.

Análise: a proporção de casos “não resolvidos” segue subindo

Um dado pouco comentado, mas relevante para entender a trajetória do programa, é a evolução da proporção de arquivos classificados oficialmente como “não resolvidos” dentro do acervo total do PURSUE.

Segundo acompanhamento de observadores independentes, essa proporção subiu de 61% após o segundo lote para 64% depois do quarto, e alcançou 66% com a chegada do quinto lote, um crescimento constante, embora modesto, a cada nova liberação.

Essa tendência alimenta interpretações divergentes dentro da comunidade que acompanha o tema. Uma parte dos observadores vê no volume crescente de arquivos, combinado à falta de vídeos conclusivos em alta definição, uma estratégia de “inundar a zona com informação”, entregar grandes quantidades de material oficial sem, no entanto, incluir a prova definitiva que parte do público espera.

Outra leitura, mais favorável ao programa, argumenta que memorandos internos revelando décadas de esforço deliberado para minimizar publicamente o tema já representam, por si só, uma forma de transparência, independentemente de qualquer vídeo específico ser ou não conclusivo.

Panorama consolidado: cinco lotes do PURSUE

LoteDataTotal de arquivosMarco principal
Lote 108/05/2026~160Lançamento do programa PURSUE
Lote 222/05/2026~64Primeira liberação multiagência
Lote 312/06/202672Estreia do FBI e primeira Avaliação de Inteligência (caso Colorado Springs)
Lote 410/07/20264019 vídeos infravermelhos “não resolvidos” do AARO
Lote 507/08/202641Prioridade a reconstruções digitais sobre vídeo bruto de sensores

Segundo análises independentes, o acervo acumulado dos cinco lotes já soma cerca de 375 arquivos, provenientes de agências como Departamento de Guerra, CIA, FBI, NASA, Departamento de Energia e Departamento de Estado.

Tabela: os casos mais analíticos do lote 5

CasoLocal / AnoTipo de arquivoPonto de destaque analítico
Golfo de Omã (AC-130)2021Relatório de inteligência + filmagens secundárias25 “orbes frias”; falha total do gravador digital da aeronave
FBI-UAP-D0292011Renderização digitalTriângulo escuro com luzes, associado à tipologia recorrente de “triângulos negros”
Porto Rico1964Documento históricoObjeto delta a velocidades superiores a Mach 3
Bagram, Afeganistão2002Renderização digitalTriângulo translúcido, mesma tipologia visual do caso de 2011
Colorado Springs (2ª ocorrência)2023Renderização digitalSegundo caso registrado na mesma região do “objeto batata” de 2022
Bahia, Brasil1963Cabo diplomáticoCaso já explicado pelas próprias autoridades, mas mantido no acervo “não resolvido”

Curiosidades sobre o lote 5

  1. O conjunto de dados brutos do lote 5 somou apenas 643 MB, o menor volume entre os cinco lotes já divulgados.
  2. Pela primeira vez, o programa priorizou reconstruções digitais em vez de vídeos brutos de sensores militares.
  3. O incidente do Golfo de Omã, com 25 objetos observados, não gerou nenhum segundo de gravação direta.
  4. Colorado Springs voltou a aparecer no acervo do PURSUE, desta vez com um caso distinto, registrado em 2023.
  5. Um objeto de 1964, em Porto Rico, foi catalogado ao lado de casos de 2023 sob a mesma tipologia visual triangular.
  6. A proporção de arquivos “não resolvidos” no acervo total do PURSUE já passa de 66%.
  7. O episódio sueco dos “Foguetes Fantasmas” de 1947 aparece como paralelo histórico para entender ajustes de narrativa por conveniência diplomática.
  8. O caso brasileiro de 1963 permanece classificado como “não resolvido” mesmo após ter sido oficialmente desmentido na época.
  9. Analistas independentes já contabilizam cerca de 375 arquivos acumulados nos cinco lotes do programa.
  10. Parte da comunidade de pesquisadores interpreta a ausência de vídeos em alta definição como sinal de que o material mais conclusivo ainda não foi liberado.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quando o quinto lote do PURSUE foi divulgado?

Em 7 de agosto de 2026, com 41 novos arquivos.

O que diferencia o lote 5 dos anteriores?

Pela primeira vez, o governo priorizou reconstruções digitais e documentos de inteligência histórica em vez de vídeos brutos de sensores militares, que dominaram os quatro primeiros lotes.

O que aconteceu no caso do Golfo de Omã?

Uma aeronave AC-130 relatou ter observado cerca de 25 “orbes frias” durante um exercício em 2021, mas o gravador digital da aeronave falhou, e não há registro direto do evento.

O que são os “triângulos negros” mencionados no lote 5?

Uma tipologia recorrente de objetos triangulares ou em formato delta, documentada em casos que vão de 1964 até 2023, incluindo renderizações digitais do FBI.

O caso brasileiro de 1963 foi confirmado como um OVNI real?

Não. Documentos da época já indicavam se tratar de uma notícia fabricada, mas o arquivo segue catalogado dentro do acervo de casos “não resolvidos” do PURSUE.

Por que tantos vídeos do lote 5 têm baixa qualidade?

Vários dos vídeos são filmagens secundárias, feitas por celulares de tripulantes ou embarcações próximas, usadas para suprir falhas nos sistemas de gravação originais durante os incidentes.

A proporção de casos “não resolvidos” está aumentando?

Sim. Segundo análises independentes, essa proporção passou de cerca de 61% após o segundo lote para mais de 66% após o quinto.

Existe alguma prova de tecnologia extraterrestre no lote 5?

Não. Nenhum documento do quinto lote apresenta prova de tecnologia ou vida de origem extraterrestre.

Quantos arquivos o PURSUE já divulgou no total?

Cerca de 375, somando os cinco lotes publicados entre maio e agosto de 2026, segundo contagens independentes.

Onde posso acessar os arquivos originais do quinto lote?

No portal oficial WAR.GOV/UFO, na seção correspondente ao Release 05.


O quinto lote do PURSUE marca uma inflexão sutil, mas significativa, na forma como o governo americano está gerindo a divulgação pública do tema UAP.

Ao substituir parcialmente vídeos brutos por reconstruções digitais e documentos de inteligência histórica, o Departamento de Guerra parece reconhecer uma limitação incômoda: mesmo com sensores militares avançados, os momentos mais decisivos dos encontros continuam sendo registrados de forma incompleta, quando são registrados.

Isso não torna o lote menos relevante, ao contrário, a recorrência de falhas técnicas, a tipologia dos “triângulos negros” atravessando oito décadas, e a forma como casos como o brasileiro de 1963 seguem classificados como “não resolvidos” mesmo depois de desmentidos dizem tanto sobre a natureza dos fenômenos observados quanto sobre a própria burocracia que os documenta.

Com mais liberações prometidas para as próximas semanas, resta acompanhar se os próximos lotes vão trazer o tipo de evidência definitiva que parte do público ainda espera, ou se o padrão de dados incompletos, por razões técnicas ou não, vai continuar se repetindo.

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Renê Fraga é criador do Arquivo UFO e editor-chefe do Eurisko. Atua com projetos digitais desde 1996 e mantém interesse contínuo pela ufologia, história e investigação de fenômenos aéreos não identificados. No Arquivo UFO, dedica-se à preservação de registros históricos, documentos e análises contextuais, conectando passado e presente em uma abordagem crítica e investigativa.
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